Por tratar-se de uma linguagem de computador com comandos e pelos traçados da tartaruga serem normalmente segmentos de reta, o Logo tem sido associado ao ensino de matemática. Acho que esta avaliação reduz excessivamente o que efetivamente o ensino de Logo realiza.
Apenas para aqueles que já possuem alguma familiaridade com o Logo, e com a finalidade de propor questões para análise e debate, listo a seguir um conjunto de disciplinas que são afetadas (ou podem ser) ao se utilizar o Logo:
Comecemos pensando na matemática e aritmética:
- claramente os alunos aprimorarão seus conceitos de soma e subtração, para assim poder calcular as distâncias faltantes para completar trajetos (como seria possível desenhar a letra T sem fazer uma subtração?)
- outro conhecimento que é desenvolvido é o de graus: 90, 45 e 180 passam a ter um significado muito mais intuitivo que apenas os conceitos pensados através do uso de um transferidor;
- espera-se um aprimoramento no reconhecimento e criação de figuras como hexágonos, heptágonos, etc. Ou seja um reforço no aprendizado de geometria;
Desenvolvimento da capacidade de planejamento dos alunos:
- o encadeamento de operação para a realização de um objetivo (primeiro avançar, depois girar e só então retornar) passa a ser um dos itens mais importantes a ser aprendidos;
- outro ponto importante é a manutenção do objetivo final, que torna-se claro e explícito e não difuso ("vou desenhar uma casa com jardim"). Normalmente os planejamentos realizados por adultos, hoje em dia, são muito difusos em seus objetivos, e isto pode explicar porque os objetivos não costumam ser atingidos. ;-)
Claro que como há uma ênfase nos desenhos, é provável que haja alguma evolução artística e dos conceitos estéticos dos alunos. Seja na representação concreta de objetos e animais ou em desenhos abstratos (que o comando REPETIR também induz). Como forma de expressão corporal está a graça em fazer e assistir a tartaruga dar voltas malucas.
Uma melhora nas habilidades de comunicação pode ser fruto de os alunos conseguirem entender as funções da comunicação: a transmissão de comandos e os efeitos causados propiciando um diálogo. Até mesmo a redação pode ter uma melhora, na função direta em que os alunos passam a encadear (ordenar) melhor seus raciocínios.
Mesmo conceitos típicos da "Teoria de Sistema", algo que suponho muito deficiente em nosso ensino, são obviamente apreendidos: os alunos passam a perceber que os objetos (sistemas) são compostos de partes, com finalidades específicas (como uma chaminé e sua função indicada pela fumaça).
Por outro lado, como o aprendizado de biologia pode ser afetado através do aprendizado de Logo?
Uma das alternativas seria através de um projeto que buscasse desenhar uma célula, ou as fases do crescimento de uma flor.
Mas existe uma outra possibilidade, a meu ver muito mais poderosa, embora de implementação mais complexa. Por exemplo, um ensino com integração entre disciplinas, na qual o Logo, por um tempo tenha uma importância central. Explico:
Em conjunto, as disciplinas podem efetuar integração temporal de assuntos tratados, assim os passos dados pela tartaruga podem ser analisados pelo professor de física e biologia, ora verificando que o tamanho dos passos de um aluno é diferente dos de outro, ora discutindo a utilidade e estrutura dos pés, evoluir para o conceito de estabilidade dos corpos, etc.
Integrando geografia e Logo pode-se solicitar aos alunos que desenhem vales e montanhas, o contorno do Brasil ou de nosso estado, ou mesmo que efetuem o trajeto realizado por Cabral no descobrimento.
Seria o Logo então uma panacéia que tudo resolve? Certamente que não!
Pensando sobre isto tentei localizar pontos onde o Logo fosse inadequado para o ensino, dentre eles percebi:
- a tartaruga, por responder sempre friamente e igualmente aos comandos, não parece fortalecer o amadurecimento emocional dos alunos;
- a tartaruga age sempre só, o que passa um ar de individualidade, alguns modelos de programas na qual há um trabalho colaborativo de várias tartarugas pode minimizar esta característica;
- como o aluno passa a ter completo controle sobre a tartaruga, inclusive apagando tudo com um clique de mouse,dependendo de seu grau de maturidade, pode ficar confuso sobre o excessivo autoritarismo e poder que está exercendo.
- pode ser percebido, pelos alunos, como um outro jogo de computador, apenas mais chato, pois os desenhos são simples e requer gasto de energia mental (pensar cansa!)
Uma forma de lidar com o conceito de panacéia é evitar o deslumbramento, o Logo é muito interessante, mas deve ser parte de um conjunto e não o todo no ensino.
Vale a pena tentar!
O uso do Logo, ou de alguma outra metodologia/programa de ensino que vier a substituí-lo, é um desafio com uma riqueza de opções muito grande e que, se desenvolvido com esforço e tenacidade, é capaz de auxiliar nosso ensino para um grande salto de qualidade.
Trata-se do uso das mesmas ferramentas hoje disponíveis ... a diferença é a nova óptica e o fato de envolver muitas disciplinas.
Colhi esta citação e acho que é muito pertinente:
In the classroom, however, teachers never really embraced
the new tools (Todd)
cuja tradução livre seria:
Nas salas de aula, contudo, os professores jamais abraçaram as novas técnicas com efetiva vontade (Todd)